Comparar duas propostas de projeto é difícil porque quase ninguém sabe o que deveria estar dentro delas. E a diferença entre um projeto e outro raramente está no preço: está no que cada um entrega. Este texto é a lista do que se deve esperar, segundo a norma que organiza o assunto.
Projeto arquitetônico não é projeto completo
São duas coisas distintas e a confusão entre elas explica muita frustração. A ABNT NBR 16636-2 é explícita: os projetos executivos complementares devem obedecer às normas de cada setor e ser compatibilizados de forma integrada com o projeto arquitetônico, de maneira a formar o conjunto denominado Projeto Completo da Edificação.
A palavra que carrega o peso ali é compatibilizados. Não basta cada especialista entregar o seu. Alguém precisa garantir que a tubulação passe onde não há viga e que a luminária não caia no lugar onde o ar-condicionado vai ficar.
As especialidades que compõem o conjunto
A norma lista o que deve ser coordenado num projeto de edificação, conforme o caso:
- fundações;
- estruturas;
- sistemas de instalações prediais e de segurança;
- iluminação e luminotécnica;
- comunicação visual;
- arquitetura paisagística e paisagismo das áreas externas;
- impermeabilização;
- equipamentos eletromecânicos;
- leiaute e mobiliário acessório, ou seja, design de interiores;
- acústica.
Nem toda casa precisa das dez. O ponto é outro: quando você recebe uma proposta, vale saber quais delas estão dentro, quais ficam por sua conta e quem vai coordenar o encontro entre elas.
O que a norma manda definir no contrato
Esta é a parte que quase ninguém conhece e que resolve boa parte dos atritos. A norma determina que três temas sejam definidos previamente, em comum acordo entre contratante e contratado.
1. De quem são as atividades preparatórias. Levantamento topográfico, sondagem do solo, documentação do terreno: alguém tem que fazer, e o contrato precisa dizer se é você ou o escritório. É a origem mais comum de discussão de escopo.
2. A coordenação e o cronograma. A norma pede cronograma de atividades elaborado por profissional habilitado, de acordo com a complexidade do projeto. Cronograma no contrato é o que transforma prazo em compromisso.
3. Os direitos autorais, especialmente em caso de repetição. Projeto de arquitetura é obra intelectual. Se você pretende repetir aquela casa em outro terreno, isso precisa estar acordado antes, não depois.
Como usar isso na hora de comparar propostas Em vez de perguntar quanto custa, pergunte quais especialidades estão incluídas, quem faz levantamento e sondagem, qual o cronograma por etapa e o que acontece se você quiser repetir o projeto. Duas propostas com valores diferentes costumam ser, na verdade, dois escopos diferentes.
O que você recebe no final
O projeto executivo arquitetônico, segundo a norma, entrega desenhos e textos. Nos desenhos: implantação com informações de locação, plantas e cortes de terraplenagem com as cotas de nível, plantas e detalhes das coberturas, cortes, elevações de todas as fachadas e — este item merece atenção — plantas, cortes e elevações de ambientes especiais como banheiros, cozinhas e lavanderias, com a especificação técnica dos componentes.
Nos textos: memorial descritivo dos elementos e componentes, memorial descritivo das instalações, memorial quantitativo com o somatório dos materiais e planilhas orçamentárias.
Perspectivas, maquetes e imagens são listadas pela norma como opcionais. São o que mais encanta, mas não são o projeto. Falamos disso no texto sobre como ler um render.
Depois da obra ainda falta uma entrega
A norma prevê que, terminada a obra, a documentação seja atualizada para o conforme construído, o chamado "as built", com anuência dos autores, do construtor e do cliente. Esse conjunto deve ficar guardado para uso, manutenção e operação da casa.
Há uma frase da norma que vale copiar para dentro de qualquer obra: todas as alterações de projeto realizadas durante a obra devem ser aprovadas em comum acordo entre cliente, construtor e projetista antes de sua execução em campo. Mudança combinada no canteiro e nunca registrada é o que produz aquela casa cuja planta não corresponde à realidade — e o problema aparece dez anos depois, quando alguém precisa furar uma parede.
[A CONFIRMAR com o escritório: quais dessas especialidades entram no pacote de vocês, quais são indicadas a terceiros e quem faz a compatibilização? E vocês entregam o as built ao final?]
Fontes: ABNT NBR 16636-2:2017, Elaboração e desenvolvimento de serviços técnicos especializados de projetos arquitetônicos e urbanísticos — Parte 2, seções 6.4.7, 7.1, 7.2 e 7.3. Verificado em agosto de 2026.
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